Réptil armazena repelente nocivo a predadores ao consumir sapos venenososPor JR Minkel
Parece coisa de videogame. Uma cobra armazena toxinas ao morder um sapo venenoso e usa o veneno como defesa contra falcões e outros predadores. É exatamente isso, entretanto, que pesquisadores dizem que faz a cobra asiática Rhabdophis tigrinus, com base em estudos sobre o fluido glandular de cobras filhotes e adultas de duas ilhas japonesas.
Algumas R. tigrinus levam consigo toxinas chamadas bufadienolídeos em suas glândulas nucais, bolsas localizadas sob uma saliência da pele na parte de cima do pescoço, expondo a protuberância venenosa a um antagonista. Os arranhões e bicadas de falcões e outros predadores muitas vezes ferem a pele e liberam o veneno, que pode cegar os agressores da cobra, diz a herpetologista Deborah Hutchinson, da Universidade Old Dominion em Norfolk, Virgínia. “Ele pode não matar o predador, mas é suficiente para detê-lo”, diz.
Há alguns anos, com base nos hábitos defensivos dessas cobras em diferentes ilhas, pesquisadores japoneses sugeriram que a R. tigrinus adquiria sua toxina de sapos. A apropriação do veneno de terceiros não é um evento inédito. A borboleta monarca é famosa por coletar seu veneno de insetos que se alimentam de plantas que secretam látex, e certos sapos de cores vivas obtêm toxinas com os acarinos, mas Hutchinson diz que casos como esses em vertebrados são raros.
Para descobrir se os sapos realmente eram a fonte do veneno da cobra, Hutchinson e seus colegas alimentaram filhotes de R. tigrinus com uma dieta de sapos ou peixes. A maioria das cobras jovens continha pouco ou nenhum veneno nas glândulas nucais ao nascer. Entretanto, elas acumulavam toxina rapidamente com apenas alguns dias de alimentação com base no sapo venenoso Bufo quercicus, relataram os pesquisadores em artigo publicado online em 29 de janeiro na Proceedings of the National Academy of Sciences USA.
A descoberta é consistente com outra observação importante do grupo: as cobras da ilha de Kinkazan (que não tem sapos) não levam em suas glândulas nucais bufadienolídeos, enquanto as da ilha de Ishima, repleta de sapos, têm bastante veneno.
Hutchinson diz que as cobras podem ter dificuldade em desenvolver uma forma mais sofisticada de secretar sua toxina. As glândulas nucais vêm de uma camada embrionária diferente de outras glândulas da pele dos vertebrados, que em geral sintetizam seu próprio fluido e têm dutos para emiti-los, afirma ela. As cobras, porém, não parecem reclamar de suas glândulas peculiares. “Elas funcionam muito bem assim mesmo”, diz ela.
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